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	<title>Pedro&#039;s Log</title>
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	<description>&#34;As far as we can discern, the sole purpose of human existence is to kindle a light of meaning in the darkness of mere being.&#34; (C. Jung)</description>
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		<title>Recommended Reading</title>
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		<pubDate>Fri, 12 Mar 2010 19:24:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro Ferreira</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>George Orwell, &#8220;Politics and the English Language&#8221; (essay), 1946</p>

<p>(available <a href="http://www.netcharles.com/orwell/essays/politics-english-language1.htm">here</a>)</p>
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		<title>fork I</title>
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		<pubDate>Sun, 28 Feb 2010 22:47:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro Ferreira</dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#8220;Laboratórios Friedrich Olsen&#8221;, ordenou Pedro à estação telefónica &#8211; deitado no sofá, convalescia de uma dor de cabeça terrível que se decidira a acompanhá-lo fora das horas de trabalho. Normalmente tomava analgésicos, e a dor desaparecia quase sempre em minutos&#8230; mas desta vez preferia mascar um CBD, era mais fácil e agradável. Havia já vários [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&#8220;Laboratórios Friedrich Olsen&#8221;, ordenou Pedro à estação telefónica &#8211; deitado no sofá, convalescia de uma dor de cabeça terrível que se decidira a acompanhá-lo fora das horas de trabalho. Normalmente tomava analgésicos, e a dor desaparecia quase sempre em minutos&#8230; mas desta vez preferia mascar um CBD, era mais fácil e agradável. Havia já vários anos que o CBD tinha sido legalizado, sob a forma de pastilhas de mascar &#8211; com a guerra aberta ao consumo de tabaco, e a condenação social do acto de fumar, as drogas de mascar eram agora o padrão, e um luxo acessível às classes médias. Pedro mascava-o ocasionalmente, quando se sentia mais cansado ou ansioso&#8230; aquele era um momento ideal para substituir a sensação de dor por algum prazer artificialmente induzido. Uma jovem bem vestida e demasiado sorridente apareceu-lhe no ecrã, no que era claramente uma gravação: &#8220;Bem-vindo à linha de apoio dos laboratórios Friedrich Olsen&#8221;, dizia ela, &#8220;por favor, indique-nos a natureza da sua chamada.&#8221; Ele respondeu: &#8220;anomalia no tratamento&#8221;. A jovem figura simpática voltou a aparecer, expressando-se no mesmo tom amigável: &#8220;vamos colocá-lo em contacto com um operador. Muito obrigado!&#8221; O logotipo dos laboratórios ocupou o ecrã inteiro, rodando infinitamente sobre o próprio eixo; um par de segundos depois, este tinha sido substituído por anúncios publicitários, prática comum nas linhas de suporte gratuito: &#8220;entregue os seus restos mortais ao cuidado dos melhores &#8211; <em>Requiemasters</em> proporciona-lhe o melhor serviço a preços acessíveis &#8211; da crio-preservação à cubo-cremação, os nossos especialistas esgotarão os limites da tecnologia existente de forma a garantir que a sua presença física neste mundo permaneça pelos séculos dos séculos. <em>Requiemasters</em> proporciona também diversos tipos de serviço fúnebre de alta qualidade&#8230;&#8221; &#8211; a imagem de uma orquestra de câmara tocando música fúnebre atravessava o ecrã. Mas que raio de anúncio haviam de pôr numa linha de uma instituição de saúde pública&#8230; seguiu-se mais um anúncio, este de uma seguradora que prometia um seguro de saúde com vista a uma quase-imortalidade&#8230; ridículo, pensou ele. Felizmente, um operador atendeu, antes que o anúncio terminasse &#8211; era um indivíduo de pele morena, definitivamente não europeu, e com um sotaque claramente não nativo: &#8220;Bom dia, está a falar com Uzdut, em que posso ajudá-lo?&#8221; Pedro suspirou, e respondeu: &#8220;Boa tarde, eu submeti-me ao <em>fork</em> há&#8230;&#8221;, mas foi funebremente interrompido, &#8220;número de identificação por favor?&#8221; Pedro suspirou uma vez mais, malditos operadores, criaturas mecânicas e desprovidas de alma&#8230; apetecia-lhe abaná-los até que lhes saltassem as engrenagens pela boca&#8230; mas esticou o braço, alcançando a carteira que jazia na mesa junto ao sofá, e leu o número do cartão de saúde em voz alta. &#8220;Muito obrigado! Presumo que se trate de uma questão sobre o <em>after-fork</em> portanto&#8230;&#8221; Pedro rodou os olhos para cima, num suspiro silenciado &#8211; era a vez de ser ele a interromper&#8230; &#8220;pois, é o que dizia&#8230; o problema é que o <em>fork</em> parece ainda não ter terminado&#8230; pelo menos não tenho lembranças de nenhum&#8230;&#8221; O operador voltou a interromper, no mesmo tom de velório, proferindo uma litania aparentemente costumeira: &#8220;Como lhe foi certamente explicado antes do procedimento, as lembranças do <em>fork</em> são integradas de forma silenciosa durante o sono&#8230; poderá ter ocorrido a chamada integração 100% que, embora rara, resulta na ausência de percepção da mudança por parte do sujeito. Não há razões para crer que o <em>fork</em> não tenha ainda acabado, mas se quiser consultar pessoalmente um dos nossos especiali&#8230;&#8221; Pedro interrompeu a chamada, com um estalar de dedos. Ele sabia bem que o <em>fork</em> continuava por resolver, e a prova era que, desde que tinha saído da clínica, ainda não tinha conseguido dormir. Era estranho, para ele que não era dado a insónias e que durante muitos anos tinha dependido de triptaminas, o que lhe tinha conferido uma rotina de sono bastante rigorosa. O seu cérebro parecia mais activo do que nunca, com os níveis de cansaço a atingir máximos históricos, mas com o sono simplesmente a desaparecer. Não conseguia fechar os olhos e adormecer, quando, ao mesmo tempo, sentia que não tinha forças para continuar a pensar. Sabia que o laboratório tentaria alegar desordem psiquiátrica, talvez ansiedade ou stress, como a causa dos distúrbios, e também da supressão das memórias que deviam já ter começado a aparecer; mas ele não encontrava nenhuma razão para sintomas desse tipo &#8211; o trabalho ia calmo, a relação com Kisa decorria na normalidade&#8230; a única coisa que o atormentava nesse momento era&#8230; Ulva. Lembrou-se do nome&#8230; o pequeno crachá na lapela da bata branca justa  dava nome a esta doce e cativante figura que dois dias antes vira no laboratório. Tirou um CBD da embalagem, e trincou-o com um molar&#8230; os vapores frescos encheram-lhe a boca e subiram às cavidades nasais, já sentia o alívio&#8230; mas nada comparável com a sensação de ver Ulva, a jovem enfermeira, ou secretária, ou técnica de tomografia&#8230; pouco interessava o que fazia, ele preferia antes sonhar com os seus longos cabelos pretos e o seu sorriso imperfeitamente belo &#8211; o peito curto mas bem talhado, as linhas suaves e delicadas que lhe faziam o corpo &#8211; havia algo de maravilhosamente erótico naquela mulher. O cansaço dava agora lugar a uma espécie de sonho lúcido &#8211; ele continuava acordado, mas era a sua mente tão activa que, por mistura de drogas e esgotamento, começava a vaguear pelo surreal. Nele viu os contornos de Ulva, desenhados sobre a sua figura sorridente, desprendendo-se do próprio corpo&#8230; dentro deles desenhava-se um corpo nu, esborratado, que se debatia para extravasar as linhas, mas estas acompanhavam-no, envolviam-no, reajustavam-se. Esta Ulva impressionista ia crescendo, alargando, transformando-se num nu fauvista em tons de carne que flutuava espaço fora, que se replicava em cópias de várias cores que depois se voltavam a unir, a fundir-se num só corpo harmonioso. Os seus centros de prazer deleitavam-se com aquela imagem, a sua satisfação chegava ao riso, percorria-lhe os músculos que se esticavam e  explodiam em contracções violentas &#8211; era toda uma orgia sinestésica a solo, com as cores a salpicar-lhe a audição de zumbidos crescentes, progressivamente agudos, e a boca a não mais sentir o sabor da pastilha, o hálito fresco agora ardendo-lhe no cérebro&#8230; e os zumbidos tornavam-se cada vez mais insuportáveis, cada vez mais fortes, mais agudos, mais intensos, mais avassaladores. Até que o silêncio voltou, e Pedro abriu os olhos, apesar de não se recordar de os ter fechado&#8230; à sua frente, Ulva sorria, nua, cabelos longos adornando-lhe os ombros finos, as clavículas protuberantes que terminavam em peitos magros e pontiagudos, como uma Afrodite de mármore. O ambiente em volta deles era assustadoramente real, era o mesmo de onde ele tinha partido &#8211; o seu sofá, a sua sala, a sua televisão &#8211; tudo real, tudo como esperado, excepto ela: o ventre liso, o umbigo maravilhosamente côncavo, onde se cruzavam as doces arestas que lhe desenhavam tais finas ancas&#8230; ancas que se abriam agora, que pediam que ele as tomasse, que a sua nudez se imbuísse na dela&#8230; tudo parecia tão vívido, ele de repente nu, ela subitamente ali em frente dele&#8230; Pedro abriu os olhos uma segunda vez, para uma realidade bastante mais solitária e dolorosa &#8211; a cabeça latejava de dor; nunca tinha experimentado nada assim, muito menos com CBD&#8230; desta vez tinha ido muito para além da típica sensação de relaxamento.</p>
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		<title>Sobre o que é real</title>
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		<pubDate>Sun, 03 Jan 2010 17:58:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro Ferreira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Essays]]></category>

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		<description><![CDATA[Hoje queria falar do que é a nossa percepção da realidade, como nos inserimos nela e a utilizamos nas nossa decisões, e o que dessa realidade (que nós idealizamos) esperamos. Não me vou atrever a pôr em causa milénios de filosofia e pilhas de artigos sobre percepção, razão, julgamentos de valor&#8230; como qualquer questão sem [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Hoje queria falar do que é a nossa percepção da realidade, como nos inserimos nela e a utilizamos nas nossa decisões, e o que dessa realidade (que nós idealizamos) esperamos.
Não me vou atrever a pôr em causa milénios de filosofia e pilhas de artigos sobre percepção, razão, julgamentos de valor&#8230; como qualquer questão sem resposta, a pergunta do &#8220;o que é a realidade&#8221; tem assombrado a história humana através de conhecidas figuras. Desde o realismo de Platão até ao século XX, que nos trouxe a física quântica, a pergunta tem permanecido por responder, e, se é indubitável que a forma como abordamos o problema se alterou significativamente, a distância a uma resposta satisfatória parece não ter encurtado assim tanto. Dado o nosso actual estado em termos de desenvolvimento científico, qualquer tentativa de resolver esta questão terá uma natureza puramente especulativa e insuficiente. Esta é a minha experiência pessoal, e aquilo que eu consigo articular; a probabilidade de que esteja errado é avassaladora.</p>

<p>O Universo não tem cores, não tem texturas, não tem cheiros nem sabores nem sons&#8230; milhões de anos de evolução tornaram-nos maravilhosamente capazes de reunir todos os estímulos fornecidos pelo meio em que vivemos, e de construir imagens mentais relativamente complexas, que nos permitem idealizar o espaço que nos rodeia, e de facto &#8220;medir&#8221; as qualidades dos objectos que nos estão próximos. À capacidade de efectuar essas medições, damos o nome de &#8220;sentidos&#8221;; todas as imagens, sons, sabores, odores, tudo o que tocámos é consequência da estimulação dos sentidos, provocada pelo cosmos. A presença, entre nós, de uma quantidade substancial de pessoas que não possuem um ou mais sentidos permitiu-nos mais rapidamente compreender que a capacidade de &#8220;visualizar&#8221; locais e construir representações dos mesmos vai muito para além dos olhos e das cores; o córtex visual parece responder a estímulos de outros órgãos que não os olhos, se para tal for treinado (plasticidade neuronal). Na presença destes factos, o que no dia-a-dia classificamos como &#8220;escuro&#8221;, &#8220;suave&#8221;, &#8220;doce&#8221;, &#8220;azul&#8221;, &#8220;agudo&#8221;, &#8220;grande&#8221;, &#8220;pesado&#8221;, &#8220;distante&#8221;&#8230; pode facilmente ser reduzido ao universo das criações humanas. É justo argumentar que alguns destes adjectivos (p. ex. &#8220;distante&#8221;) têm certa primazia sobre outros (p. ex. &#8220;azul&#8221;), já que estamos a lidar com propriedades físicas que são mais primárias (a distância entre a pessoa e um objecto) versus outras de uma natureza mais complexa (o comprimento de onda que esse objecto reflecte) &#8211; podemos viver bem sem a segunda, mas a primeira é essencial ao nosso bem-estar; mas, no caso limite, todas elas são medidas e idealizadas por métodos indirectos (não há maneira de detectar a presença de algo sem recurso aos sentidos, não há caminho directo) e por isso susceptíveis de erro e de relativismos. A imagem mental que criamos, a forma como aprendemos a interpretá-la e a aceitá-la como real, tão real que com base nela pintamos quadros e criamos jogos de computador, é uma das maravilhas da evolução. Também os animais mais próximos beneficiam da riqueza deste tipo de percepção, e não creio estar a especular em demasia se disser que ela é fulcral para a síntese de emoções e comportamentos mais complexos, que nos distinguem de organismos mais simples. O tradicional exercício do &#8220;se eu fosse uma árvore&#8221; da escola primária perde de repente toda a razão de ser &#8211; eu nunca poderia ser uma árvore &#8211; ainda que a árvore responda aos estímulos exteriores e os seu mecanismos internos façam o seu melhor para manter o organismo vivo e são, as árvores não possuem sistema nervoso, nem qualquer outra forma conhecida de construir imagens do ambiente que as rodeia. A questão da diferença de complexidade entre um ser humano e um vegetal parece ser fulcral na definição de &#8220;vida inteligente&#8221;, e até mesmo simplesmente de &#8220;vida&#8221;. Uma mosca é claramente mais inteligente que uma árvore &#8211; possui algo que lhe permite construir um modelo do ambiente que a circunda e actuar sobre ele de forma mais eficiente; numa mosca, os processos químicos que regulam o comportamento são muito menos claros (pela sua complexidade) que num vegetal &#8211; começa-se a falar de inteligência e de comportamento, ainda que a ciência sugira que é tudo uma questão de escalamento da complexidade dos seus constituintes.
No século XXI, parece-me no mínimo estranho que algumas pessoas queiram conferir ao ser humano um grau de superioridade tão vasto em relação aos seus parentes mais próximos (e não falo só dos fundamentalistas religiosos): as provas da proximidade genética aos outros primatas são tão fortes, e os padrões na escala evolutiva tão óbvios&#8230; eu atrever-me-ia a dizer que, de facto, o ser humano possui algo que poderá ser único e especial, denominado &#8220;consciência&#8221; (a questão da presença de consciência nos outros mamíferos é uma matéria por resolver), que lhe confere claras vantagens no que toca à luta pela primazia em relação aos seus semelhantes (sim, porque outros não tão semelhantes, como vírus e bactérias convivem connosco e prosperam em nós) &#8211; mas o surgimento desta consciência está inevitavelmente algures entre o organismo monocelular e o último modelo de Homo Sapiens. Eu arriscaria até sugerir que a consciência é algo que se desenvolve continuamente &#8211; não há um ponto a partir do qual se considera que um organismo tem consciência, e abaixo do qual não a possui &#8211; é um fenómeno emergente da elevada complexidade do sistema nervoso humano (provavelmente do desenvolvimento do nosso neo-córtex ou do cérebro em geral, através de um longo processo evolutivo), e que não surge do nada, sem antecedentes.</p>

<p>Todo este discurso sobre grau de consciência em função do desenvolvimento cerebral vem ajudar a reiterar a posição de que por não sermos os únicos a ter esta percepção de espaço, tempo, cor, e até sabor ou olfacto é que é possível que outros animais possam chegar à criação de uma &#8220;noção de eu&#8221; e de uma &#8220;consciência&#8221;, como consequência da sua integração neste ambiente. Da mesma forma, organismos que possuam apenas versões rudimentares destes sentidos, e uma capacidade &#8220;cerebral&#8221; mais reduzida, podem ter uma percepção completamente diferente da nossa, mais ainda assim válida. O pouco tempo em que trabalhei em robótica ajudou a despoletar em mim este sentimento de que a relatividade dos conceito de &#8220;consciência&#8221; e de &#8220;autoconsciência&#8221; é muito maior do que alguma vez sonhámos. Um simples robô que use um sensor de proximidade para se manter afastado de obstáculos e circular num dado ambiente não parece ter grande consciência de si próprio, mas já demonstra um certo grau de auto-preservação &#8211; ainda mais para outro robô que para além disto também consiga detectar eventuais perigos, como água ou lama. Um autómato que consiga planear de forma mais &#8220;inteligente&#8221; o seu percurso &#8211; que em vez de vaguear eternamente entre paredes extraia pontos de referência e decida permanecer quieto enquanto não necessitar de procurar recursos, e que saiba como se dirigir do ponto A para o ponto B (porque tem pontos de referência) evitando os obstáculos &#8211; é sem dúvida muito mais próximo ao comportamento animal; isto não lhe confere a complexidade de um mamífero, mas talvez o aproxime de uma mosca ou uma formiga. A pergunta é: se continuarmos a melhorar a qualidade dos sensores e a complexidade dos algoritmos, a partir de que ponto (se é que de algum) é que este &#8220;ser&#8221; vai decidir demonstrar &#8220;estou aqui, existo&#8221;? É muito difícil responder a esta questão, mas o meu palpite é de que nunca alcançaremos este ponto, pelo menos se continuarmos a utilizar os mesmos modelos que temos utilizado até agora &#8211; Kurt Gödel chocou a elite científica quando, em 1931, com os seus teoremas da incompletude, provou que todos os sistemas axiomáticos suficientemente complexos eram incapazes de se &#8220;descrever&#8221;,  ou, posto de uma forma ainda mais simples, nenhum programa de computador será jamais capaz de provar todas as verdades aritméticas &#8211; é impossível expressar as leis da aritmética com recurso a ela própria. Da mesma forma, alguns argumentam que este princípio pode ser estendido para demonstrar que o funcionamento da mente humana é impossível de traduzir na nossa linguagem, e, por consequência, inalcançável. De facto, longe vai o tempo em que os fenómenos neurológicos eram vistos como meros eventos determinísticos &#8211; a ciência promete levar a sua compreensão à escala quântica.</p>

<p>Desde que me lembro de mim que recordo momentos da minha vida que só consigo descrever através da expressão &#8220;realidade cénica&#8221; &#8211; instantes em que pareço ter perdido a capacidade de interacção com as coisas, apesar de continuar desperto e consciente; como se uma consciência superior e &#8220;minha&#8221; estivesse meramente a observar uma consciência inferior, &#8220;activa&#8221;, que continuava a desempenhar o seu papel, sem o meu acordo &#8220;consciente&#8221;. Certamente não serei o único a reportar este tipo de sensação &#8211; longe de uma experiência extracorporal, enquadrar-se-ia mais no que os conhecedores da psique humana classificam como &#8220;despersonalização&#8221;, um sintoma comum de <em>stress</em> e ansiedade (ou do consumo de certas drogas), que quase todos (senão mesmo todos) nós experimentamos pelo menos uma vez na vida. Apesar das emoções desagradáveis que este sentimento por vezes proporciona (ou das que por vezes o causam), a ideia de assistir da tribuna ao desenrolar da nossa vida &#8211; o tal &#8220;sonhar acordado&#8221; &#8211; chega a ser tentadora; e o baixo grau de conhecimento dos fenómenos que rodeiam este efeito permitem-nos especular sobre o que está na raiz do mesmo &#8211; será a consciência dissociável? Existirão diferentes níveis de consciência? Terá a evolução criado um mecanismo de defesa que nos impeça de parar nas situações mais emotivas, como um &#8220;piloto automático&#8221; que se activa enquanto o nosso eu consciente se preocupa em torturar-se com o que acabou de se passar? Ou será apenas o nosso subconsciente a tomar conta das operações, por cansaço ou incompetência do seu superior? O que me parece evidente é que o nosso &#8220;eu consciente&#8221; não tem que lidar directamente com a realidade; ele não tem senão que regular o curso dos acontecimentos, o que por vezes, por fadiga ou natureza, falha. Resultados experimentais comprovam que algumas pessoas invisuais conseguem &#8220;ver&#8221; (o chamado <em>Blindsight</em>), ainda que não tenham consciência disso, ainda que esta &#8220;imagem&#8221; &#8211; esta projecção colorida da realidade &#8211; não lhes surja. Estaremos nós programados para interagir com a realidade a vários níveis de consciência? Não consigo parar de equiparar o sentimento de me observar, de me ver fazer as coisas, ao de ver uma formiga aos círculos, eternamente confusa &#8211; será esta consciência, este observador preocupado que naqueles poucos segundos se separa de si, o que nos diferencia dos outros? Será este outro, observado, um eterno zombie &#8211; o vestígio dos nosso antepassados mais simples &#8211; que continua a reagir por nós quando os nossos processos mentais mais elaborados se prendem como um programa de computador encravado?</p>

<p>Posto isto, o que é real? Há todo um cardápio de respostas dadas por diferentes teorias e pessoas. Uma das definições que mais me convence não vem de um filósofo, mas de um escritor de ficção científica (embora se possa argumentar que há uma clara natureza filosófica nas suas obras) &#8211; Philip K. Dick definiu &#8220;realidade&#8221; como &#8220;aquilo que não desaparece quando deixamos de acreditar nele/a&#8221;, e é minha opinião que esta definição chega muito mais fundo que a sua superfície relativista. Aquilo em que acreditamos ou deixamos de acreditar é altamente condicionado pela percepção que temos das coisas, e pelos desejos e receios que construímos sobre essa percepção &#8211; se pensarmos bem, o mesmo se aplica à &#8220;realidade&#8221;. Não é preciso chegar a extremos Orwelianos para constatar como o media manipulam o nosso sentido de realidade, todos os dias, apresentando-nos informação cuidadosamente seleccionada. Eu confesso que tendo a ficar deprimido quando vejo televisão a mais &#8211; ainda que saiba que as desgraças apresentadas são uma parte da estatística, a minha natureza humana aceita-as e acomoda-as como se fossem exemplos &#8211; com os media aprendemos a ter medo da lei, das doenças, dos terroristas&#8230; felizmente que o advento da Internet nos permite seleccionar as nossas fontes (o que, ironicamente, pode ser igualmente perigoso). E como filtrar toda essa informação? Numa era de comunicação global, não posso estar in loco, a confirmar se o Iraque tem armas de destruição em massa, ou se a <em>Al-Qaeda</em> realmente existe e está activa, a planear o Apocalipse no ocidente. Não admira, assim, que a resposta de Dick nada ajude, mas antes levante mais questões &#8211; até que ponto posso desnudar a minha visão do mundo, até chegar à realidade &#8220;final&#8221;? Será o que vejo, aqui e agora também real? O que me faz acreditar nisso? Porque não decido assumir que o que vejo é tão irreal como algumas imagens que me possam surgir em sonhos ou alucinações? Esta pergunta tem milénios de idade, e cruzou as grandes mentes, de Platão a Descartes, acabando por influenciar a escrita de páginas e páginas, e quilómetros de película cinematográfica &#8211; e se tudo não passar de um sonho, de uma simulação? Não parece uma hipótese completamente absurda, se considerarmos que o nosso &#8220;ser consciente&#8221; assenta sobre a informação que recebe das camadas mais básicas do cérebro. Alguns até vão mais longe e acreditam que o Universo demonstra certas propriedades que aumentam a probabilidade de estarmos a viver num mundo simulado.</p>

<p>Qualquer que seja a resposta, não há muito que eu possa fazer, além de escrever sobre isto. Seja a realidade qual for, ainda que não tenha certezas de nada, só posso continuar a viver como se tudo existisse e tudo fosse, de facto, real. Não dar o benefício da dúvida aos meus sentidos acabaria com a minha existência enquanto ser humano.</p>

<p><em>2 de Janeiro de 2010</em></p>
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