Sobre o que é real

Hoje queria falar do que é a nossa percepção da realidade, como nos inserimos nela e a utilizamos nas nossa decisões, e o que dessa realidade (que nós idealizamos) esperamos. Não me vou atrever a pôr em causa milénios de filosofia e pilhas de artigos sobre percepção, razão, julgamentos de valor… como qualquer questão sem resposta, a pergunta do “o que é a realidade” tem assombrado a história humana através de conhecidas figuras. Desde o realismo de Platão até ao século XX, que nos trouxe a física quântica, a pergunta tem permanecido por responder, e, se é indubitável que a forma como abordamos o problema se alterou significativamente, a distância a uma resposta satisfatória parece não ter encurtado assim tanto. Dado o nosso actual estado em termos de desenvolvimento científico, qualquer tentativa de resolver esta questão terá uma natureza puramente especulativa e insuficiente. Esta é a minha experiência pessoal, e aquilo que eu consigo articular; a probabilidade de que esteja errado é avassaladora.

O Universo não tem cores, não tem texturas, não tem cheiros nem sabores nem sons… milhões de anos de evolução tornaram-nos maravilhosamente capazes de reunir todos os estímulos fornecidos pelo meio em que vivemos, e de construir imagens mentais relativamente complexas, que nos permitem idealizar o espaço que nos rodeia, e de facto “medir” as qualidades dos objectos que nos estão próximos. À capacidade de efectuar essas medições, damos o nome de “sentidos”; todas as imagens, sons, sabores, odores, tudo o que tocámos é consequência da estimulação dos sentidos, provocada pelo cosmos. A presença, entre nós, de uma quantidade substancial de pessoas que não possuem um ou mais sentidos permitiu-nos mais rapidamente compreender que a capacidade de “visualizar” locais e construir representações dos mesmos vai muito para além dos olhos e das cores; o córtex visual parece responder a estímulos de outros órgãos que não os olhos, se para tal for treinado (plasticidade neuronal). Na presença destes factos, o que no dia-a-dia classificamos como “escuro”, “suave”, “doce”, “azul”, “agudo”, “grande”, “pesado”, “distante”… pode facilmente ser reduzido ao universo das criações humanas. É justo argumentar que alguns destes adjectivos (p. ex. “distante”) têm certa primazia sobre outros (p. ex. “azul”), já que estamos a lidar com propriedades físicas que são mais primárias (a distância entre a pessoa e um objecto) versus outras de uma natureza mais complexa (o comprimento de onda que esse objecto reflecte) – podemos viver bem sem a segunda, mas a primeira é essencial ao nosso bem-estar; mas, no caso limite, todas elas são medidas e idealizadas por métodos indirectos (não há maneira de detectar a presença de algo sem recurso aos sentidos, não há caminho directo) e por isso susceptíveis de erro e de relativismos. A imagem mental que criamos, a forma como aprendemos a interpretá-la e a aceitá-la como real, tão real que com base nela pintamos quadros e criamos jogos de computador, é uma das maravilhas da evolução. Também os animais mais próximos beneficiam da riqueza deste tipo de percepção, e não creio estar a especular em demasia se disser que ela é fulcral para a síntese de emoções e comportamentos mais complexos, que nos distinguem de organismos mais simples. O tradicional exercício do “se eu fosse uma árvore” da escola primária perde de repente toda a razão de ser – eu nunca poderia ser uma árvore – ainda que a árvore responda aos estímulos exteriores e os seu mecanismos internos façam o seu melhor para manter o organismo vivo e são, as árvores não possuem sistema nervoso, nem qualquer outra forma conhecida de construir imagens do ambiente que as rodeia. A questão da diferença de complexidade entre um ser humano e um vegetal parece ser fulcral na definição de “vida inteligente”, e até mesmo simplesmente de “vida”. Uma mosca é claramente mais inteligente que uma árvore – possui algo que lhe permite construir um modelo do ambiente que a circunda e actuar sobre ele de forma mais eficiente; numa mosca, os processos químicos que regulam o comportamento são muito menos claros (pela sua complexidade) que num vegetal – começa-se a falar de inteligência e de comportamento, ainda que a ciência sugira que é tudo uma questão de escalamento da complexidade dos seus constituintes. No século XXI, parece-me no mínimo estranho que algumas pessoas queiram conferir ao ser humano um grau de superioridade tão vasto em relação aos seus parentes mais próximos (e não falo só dos fundamentalistas religiosos): as provas da proximidade genética aos outros primatas são tão fortes, e os padrões na escala evolutiva tão óbvios… eu atrever-me-ia a dizer que, de facto, o ser humano possui algo que poderá ser único e especial, denominado “consciência” (a questão da presença de consciência nos outros mamíferos é uma matéria por resolver), que lhe confere claras vantagens no que toca à luta pela primazia em relação aos seus semelhantes (sim, porque outros não tão semelhantes, como vírus e bactérias convivem connosco e prosperam em nós) – mas o surgimento desta consciência está inevitavelmente algures entre o organismo monocelular e o último modelo de Homo Sapiens. Eu arriscaria até sugerir que a consciência é algo que se desenvolve continuamente – não há um ponto a partir do qual se considera que um organismo tem consciência, e abaixo do qual não a possui – é um fenómeno emergente da elevada complexidade do sistema nervoso humano (provavelmente do desenvolvimento do nosso neo-córtex ou do cérebro em geral, através de um longo processo evolutivo), e que não surge do nada, sem antecedentes.

Todo este discurso sobre grau de consciência em função do desenvolvimento cerebral vem ajudar a reiterar a posição de que por não sermos os únicos a ter esta percepção de espaço, tempo, cor, e até sabor ou olfacto é que é possível que outros animais possam chegar à criação de uma “noção de eu” e de uma “consciência”, como consequência da sua integração neste ambiente. Da mesma forma, organismos que possuam apenas versões rudimentares destes sentidos, e uma capacidade “cerebral” mais reduzida, podem ter uma percepção completamente diferente da nossa, mais ainda assim válida. O pouco tempo em que trabalhei em robótica ajudou a despoletar em mim este sentimento de que a relatividade dos conceito de “consciência” e de “autoconsciência” é muito maior do que alguma vez sonhámos. Um simples robô que use um sensor de proximidade para se manter afastado de obstáculos e circular num dado ambiente não parece ter grande consciência de si próprio, mas já demonstra um certo grau de auto-preservação – ainda mais para outro robô que para além disto também consiga detectar eventuais perigos, como água ou lama. Um autómato que consiga planear de forma mais “inteligente” o seu percurso – que em vez de vaguear eternamente entre paredes extraia pontos de referência e decida permanecer quieto enquanto não necessitar de procurar recursos, e que saiba como se dirigir do ponto A para o ponto B (porque tem pontos de referência) evitando os obstáculos – é sem dúvida muito mais próximo ao comportamento animal; isto não lhe confere a complexidade de um mamífero, mas talvez o aproxime de uma mosca ou uma formiga. A pergunta é: se continuarmos a melhorar a qualidade dos sensores e a complexidade dos algoritmos, a partir de que ponto (se é que de algum) é que este “ser” vai decidir demonstrar “estou aqui, existo”? É muito difícil responder a esta questão, mas o meu palpite é de que nunca alcançaremos este ponto, pelo menos se continuarmos a utilizar os mesmos modelos que temos utilizado até agora – Kurt Gödel chocou a elite científica quando, em 1931, com os seus teoremas da incompletude, provou que todos os sistemas axiomáticos suficientemente complexos eram incapazes de se “descrever”, ou, posto de uma forma ainda mais simples, nenhum programa de computador será jamais capaz de provar todas as verdades aritméticas – é impossível expressar as leis da aritmética com recurso a ela própria. Da mesma forma, alguns argumentam que este princípio pode ser estendido para demonstrar que o funcionamento da mente humana é impossível de traduzir na nossa linguagem, e, por consequência, inalcançável. De facto, longe vai o tempo em que os fenómenos neurológicos eram vistos como meros eventos determinísticos – a ciência promete levar a sua compreensão à escala quântica.

Desde que me lembro de mim que recordo momentos da minha vida que só consigo descrever através da expressão “realidade cénica” – instantes em que pareço ter perdido a capacidade de interacção com as coisas, apesar de continuar desperto e consciente; como se uma consciência superior e “minha” estivesse meramente a observar uma consciência inferior, “activa”, que continuava a desempenhar o seu papel, sem o meu acordo “consciente”. Certamente não serei o único a reportar este tipo de sensação – longe de uma experiência extracorporal, enquadrar-se-ia mais no que os conhecedores da psique humana classificam como “despersonalização”, um sintoma comum de stress e ansiedade (ou do consumo de certas drogas), que quase todos (senão mesmo todos) nós experimentamos pelo menos uma vez na vida. Apesar das emoções desagradáveis que este sentimento por vezes proporciona (ou das que por vezes o causam), a ideia de assistir da tribuna ao desenrolar da nossa vida – o tal “sonhar acordado” – chega a ser tentadora; e o baixo grau de conhecimento dos fenómenos que rodeiam este efeito permitem-nos especular sobre o que está na raiz do mesmo – será a consciência dissociável? Existirão diferentes níveis de consciência? Terá a evolução criado um mecanismo de defesa que nos impeça de parar nas situações mais emotivas, como um “piloto automático” que se activa enquanto o nosso eu consciente se preocupa em torturar-se com o que acabou de se passar? Ou será apenas o nosso subconsciente a tomar conta das operações, por cansaço ou incompetência do seu superior? O que me parece evidente é que o nosso “eu consciente” não tem que lidar directamente com a realidade; ele não tem senão que regular o curso dos acontecimentos, o que por vezes, por fadiga ou natureza, falha. Resultados experimentais comprovam que algumas pessoas invisuais conseguem “ver” (o chamado Blindsight), ainda que não tenham consciência disso, ainda que esta “imagem” – esta projecção colorida da realidade – não lhes surja. Estaremos nós programados para interagir com a realidade a vários níveis de consciência? Não consigo parar de equiparar o sentimento de me observar, de me ver fazer as coisas, ao de ver uma formiga aos círculos, eternamente confusa – será esta consciência, este observador preocupado que naqueles poucos segundos se separa de si, o que nos diferencia dos outros? Será este outro, observado, um eterno zombie – o vestígio dos nosso antepassados mais simples – que continua a reagir por nós quando os nossos processos mentais mais elaborados se prendem como um programa de computador encravado?

Posto isto, o que é real? Há todo um cardápio de respostas dadas por diferentes teorias e pessoas. Uma das definições que mais me convence não vem de um filósofo, mas de um escritor de ficção científica (embora se possa argumentar que há uma clara natureza filosófica nas suas obras) – Philip K. Dick definiu “realidade” como “aquilo que não desaparece quando deixamos de acreditar nele/a”, e é minha opinião que esta definição chega muito mais fundo que a sua superfície relativista. Aquilo em que acreditamos ou deixamos de acreditar é altamente condicionado pela percepção que temos das coisas, e pelos desejos e receios que construímos sobre essa percepção – se pensarmos bem, o mesmo se aplica à “realidade”. Não é preciso chegar a extremos Orwelianos para constatar como o media manipulam o nosso sentido de realidade, todos os dias, apresentando-nos informação cuidadosamente seleccionada. Eu confesso que tendo a ficar deprimido quando vejo televisão a mais – ainda que saiba que as desgraças apresentadas são uma parte da estatística, a minha natureza humana aceita-as e acomoda-as como se fossem exemplos – com os media aprendemos a ter medo da lei, das doenças, dos terroristas… felizmente que o advento da Internet nos permite seleccionar as nossas fontes (o que, ironicamente, pode ser igualmente perigoso). E como filtrar toda essa informação? Numa era de comunicação global, não posso estar in loco, a confirmar se o Iraque tem armas de destruição em massa, ou se a Al-Qaeda realmente existe e está activa, a planear o Apocalipse no ocidente. Não admira, assim, que a resposta de Dick nada ajude, mas antes levante mais questões – até que ponto posso desnudar a minha visão do mundo, até chegar à realidade “final”? Será o que vejo, aqui e agora também real? O que me faz acreditar nisso? Porque não decido assumir que o que vejo é tão irreal como algumas imagens que me possam surgir em sonhos ou alucinações? Esta pergunta tem milénios de idade, e cruzou as grandes mentes, de Platão a Descartes, acabando por influenciar a escrita de páginas e páginas, e quilómetros de película cinematográfica – e se tudo não passar de um sonho, de uma simulação? Não parece uma hipótese completamente absurda, se considerarmos que o nosso “ser consciente” assenta sobre a informação que recebe das camadas mais básicas do cérebro. Alguns até vão mais longe e acreditam que o Universo demonstra certas propriedades que aumentam a probabilidade de estarmos a viver num mundo simulado.

Qualquer que seja a resposta, não há muito que eu possa fazer, além de escrever sobre isto. Seja a realidade qual for, ainda que não tenha certezas de nada, só posso continuar a viver como se tudo existisse e tudo fosse, de facto, real. Não dar o benefício da dúvida aos meus sentidos acabaria com a minha existência enquanto ser humano.

2 de Janeiro de 2010

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