“Laboratórios Friedrich Olsen”, ordenou Pedro à estação telefónica – deitado no sofá, convalescia de uma dor de cabeça terrível que se decidira a acompanhá-lo fora das horas de trabalho. Normalmente tomava analgésicos, e a dor desaparecia quase sempre em minutos… mas desta vez preferia mascar um CBD, era mais fácil e agradável. Havia já vários anos que o CBD tinha sido legalizado, sob a forma de pastilhas de mascar – com a guerra aberta ao consumo de tabaco, e a condenação social do acto de fumar, as drogas de mascar eram agora o padrão, e um luxo acessível às classes médias. Pedro mascava-o ocasionalmente, quando se sentia mais cansado ou ansioso… aquele era um momento ideal para substituir a sensação de dor por algum prazer artificialmente induzido. Uma jovem bem vestida e demasiado sorridente apareceu-lhe no ecrã, no que era claramente uma gravação: “Bem-vindo à linha de apoio dos laboratórios Friedrich Olsen”, dizia ela, “por favor, indique-nos a natureza da sua chamada.” Ele respondeu: “anomalia no tratamento”. A jovem figura simpática voltou a aparecer, expressando-se no mesmo tom amigável: “vamos colocá-lo em contacto com um operador. Muito obrigado!” O logotipo dos laboratórios ocupou o ecrã inteiro, rodando infinitamente sobre o próprio eixo; um par de segundos depois, este tinha sido substituído por anúncios publicitários, prática comum nas linhas de suporte gratuito: “entregue os seus restos mortais ao cuidado dos melhores – Requiemasters proporciona-lhe o melhor serviço a preços acessíveis – da crio-preservação à cubo-cremação, os nossos especialistas esgotarão os limites da tecnologia existente de forma a garantir que a sua presença física neste mundo permaneça pelos séculos dos séculos. Requiemasters proporciona também diversos tipos de serviço fúnebre de alta qualidade…” – a imagem de uma orquestra de câmara tocando música fúnebre atravessava o ecrã. Mas que raio de anúncio haviam de pôr numa linha de uma instituição de saúde pública… seguiu-se mais um anúncio, este de uma seguradora que prometia um seguro de saúde com vista a uma quase-imortalidade… ridículo, pensou ele. Felizmente, um operador atendeu, antes que o anúncio terminasse – era um indivíduo de pele morena, definitivamente não europeu, e com um sotaque claramente não nativo: “Bom dia, está a falar com Uzdut, em que posso ajudá-lo?” Pedro suspirou, e respondeu: “Boa tarde, eu submeti-me ao fork há…”, mas foi funebremente interrompido, “número de identificação por favor?” Pedro suspirou uma vez mais, malditos operadores, criaturas mecânicas e desprovidas de alma… apetecia-lhe abaná-los até que lhes saltassem as engrenagens pela boca… mas esticou o braço, alcançando a carteira que jazia na mesa junto ao sofá, e leu o número do cartão de saúde em voz alta. “Muito obrigado! Presumo que se trate de uma questão sobre o after-fork portanto…” Pedro rodou os olhos para cima, num suspiro silenciado – era a vez de ser ele a interromper… “pois, é o que dizia… o problema é que o fork parece ainda não ter terminado… pelo menos não tenho lembranças de nenhum…” O operador voltou a interromper, no mesmo tom de velório, proferindo uma litania aparentemente costumeira: “Como lhe foi certamente explicado antes do procedimento, as lembranças do fork são integradas de forma silenciosa durante o sono… poderá ter ocorrido a chamada integração 100% que, embora rara, resulta na ausência de percepção da mudança por parte do sujeito. Não há razões para crer que o fork não tenha ainda acabado, mas se quiser consultar pessoalmente um dos nossos especiali…” Pedro interrompeu a chamada, com um estalar de dedos. Ele sabia bem que o fork continuava por resolver, e a prova era que, desde que tinha saído da clínica, ainda não tinha conseguido dormir. Era estranho, para ele que não era dado a insónias e que durante muitos anos tinha dependido de triptaminas, o que lhe tinha conferido uma rotina de sono bastante rigorosa. O seu cérebro parecia mais activo do que nunca, com os níveis de cansaço a atingir máximos históricos, mas com o sono simplesmente a desaparecer. Não conseguia fechar os olhos e adormecer, quando, ao mesmo tempo, sentia que não tinha forças para continuar a pensar. Sabia que o laboratório tentaria alegar desordem psiquiátrica, talvez ansiedade ou stress, como a causa dos distúrbios, e também da supressão das memórias que deviam já ter começado a aparecer; mas ele não encontrava nenhuma razão para sintomas desse tipo – o trabalho ia calmo, a relação com Kisa decorria na normalidade… a única coisa que o atormentava nesse momento era… Ulva. Lembrou-se do nome… o pequeno crachá na lapela da bata branca justa dava nome a esta doce e cativante figura que dois dias antes vira no laboratório. Tirou um CBD da embalagem, e trincou-o com um molar… os vapores frescos encheram-lhe a boca e subiram às cavidades nasais, já sentia o alívio… mas nada comparável com a sensação de ver Ulva, a jovem enfermeira, ou secretária, ou técnica de tomografia… pouco interessava o que fazia, ele preferia antes sonhar com os seus longos cabelos pretos e o seu sorriso imperfeitamente belo – o peito curto mas bem talhado, as linhas suaves e delicadas que lhe faziam o corpo – havia algo de maravilhosamente erótico naquela mulher. O cansaço dava agora lugar a uma espécie de sonho lúcido – ele continuava acordado, mas era a sua mente tão activa que, por mistura de drogas e esgotamento, começava a vaguear pelo surreal. Nele viu os contornos de Ulva, desenhados sobre a sua figura sorridente, desprendendo-se do próprio corpo… dentro deles desenhava-se um corpo nu, esborratado, que se debatia para extravasar as linhas, mas estas acompanhavam-no, envolviam-no, reajustavam-se. Esta Ulva impressionista ia crescendo, alargando, transformando-se num nu fauvista em tons de carne que flutuava espaço fora, que se replicava em cópias de várias cores que depois se voltavam a unir, a fundir-se num só corpo harmonioso. Os seus centros de prazer deleitavam-se com aquela imagem, a sua satisfação chegava ao riso, percorria-lhe os músculos que se esticavam e explodiam em contracções violentas – era toda uma orgia sinestésica a solo, com as cores a salpicar-lhe a audição de zumbidos crescentes, progressivamente agudos, e a boca a não mais sentir o sabor da pastilha, o hálito fresco agora ardendo-lhe no cérebro… e os zumbidos tornavam-se cada vez mais insuportáveis, cada vez mais fortes, mais agudos, mais intensos, mais avassaladores. Até que o silêncio voltou, e Pedro abriu os olhos, apesar de não se recordar de os ter fechado… à sua frente, Ulva sorria, nua, cabelos longos adornando-lhe os ombros finos, as clavículas protuberantes que terminavam em peitos magros e pontiagudos, como uma Afrodite de mármore. O ambiente em volta deles era assustadoramente real, era o mesmo de onde ele tinha partido – o seu sofá, a sua sala, a sua televisão – tudo real, tudo como esperado, excepto ela: o ventre liso, o umbigo maravilhosamente côncavo, onde se cruzavam as doces arestas que lhe desenhavam tais finas ancas… ancas que se abriam agora, que pediam que ele as tomasse, que a sua nudez se imbuísse na dela… tudo parecia tão vívido, ele de repente nu, ela subitamente ali em frente dele… Pedro abriu os olhos uma segunda vez, para uma realidade bastante mais solitária e dolorosa – a cabeça latejava de dor; nunca tinha experimentado nada assim, muito menos com CBD… desta vez tinha ido muito para além da típica sensação de relaxamento.
About Me
Categories
Archives




Recommended Reading
George Orwell, “Politics and the English Language” (essay), 1946
(available here)